Por: Ana Flávia Café
Quando falamos em arte na educação infantil, ainda é comum pensarmos em desenhos, pinturas, colagens ou na combinação de diferentes materiais para chegar a uma produção final. Mas a arte pode — e deve — ocupar um lugar muito maior na experiência da criança.
No Sigma, partimos da crença em uma criança potente, curiosa, capaz de investigar, formular hipóteses, estabelecer relações e produzir conhecimento. Por isso, a arte não pode ser reduzida a um compilado de técnicas ou a propostas prontas que todas as crianças devem reproduzir.
Arte é linguagem. É cultura. É investigação. É uma maneira de conhecer o mundo e também de dizer algo sobre ele.
Ela está nas obras dos grandes artistas, mas também na arquitetura, na música, nos tecidos, nas manifestações populares, na arte urbana, nos costumes e nas marcas deixadas por diferentes povos ao longo da história. Conhecer arte é, portanto, ampliar o repertório cultural e aproximar a criança da diversidade e da pluralidade que constituem o nosso povo e o mundo.
Quais são os benefícios da arte na educação infantil?
A arte favorece o desenvolvimento integral porque mobiliza pensamento, corpo, emoção, criatividade e relações ao mesmo tempo.
Pintar, desenhar, modelar e construir contribuem para a percepção visual e a coordenação motora, mas os benefícios da arte para crianças vão muito além. Experiências artísticas também favorecem imaginação, expressão emocional, autoestima e habilidades socioemocionais, como previsto no próprio percurso de aprendizagem proposto para a infância.
Há ainda uma dimensão que considero especialmente potente: a autoria.
Quando uma criança produz, ela deixa de ser apenas receptora da cultura que lhe apresentamos. Ela interpreta essa cultura, relaciona-a às próprias experiências e também produz algo a partir dela.
Nesse processo, sente que sua ideia tem valor. Não porque um adulto simplesmente disse “que lindo!”, mas porque seu pensamento foi escutado e encontrou espaço para existir.
A criança se reconhece como alguém que sabe, pensa, cria e tem algo a dizer.
Como a arte contribui para o desenvolvimento infantil?
Criar também é resolver problemas.
Uma criança que possui uma ideia e deseja transformá-la em algo concreto precisa fazer escolhas: qual material utilizar? Como fazer uma estrutura permanecer em pé? O que acontece quando duas tintas se misturam? E se aquilo que imaginei não funcionar?
Entre tintas, argila, tecidos, elementos naturais, colagens e diferentes riscantes existe uma verdadeira alquimia de experimentações.
A criança formula hipóteses, testa, observa, modifica sua estratégia e tenta novamente. Por isso, desenvolvimento infantil e arte estão profundamente relacionados também à construção do pensamento crítico e à resolução de problemas.
Criatividade, nesse sentido, não é simplesmente “ter uma ideia diferente”. É imaginar possibilidades e encontrar caminhos para transformá-las em realidade. E cada pequena descoberta alimenta a autoconfiança da criança.
Quais atividades artísticas podem ser aplicadas na educação infantil?
Antes de pensar na atividade, pensamos no percurso.
No ateliê do Sigma, por exemplo, um estudo sobre a moradia de diferentes espécies levou as crianças a investigarem a arquitetura presente na natureza. Vieram o bem-te-vi, o joão-de-barro, o cupinzeiro, os livros, as conversas, os registros e novas perguntas.
Em determinado momento, as próprias crianças propuseram experimentar a terra do cupinzeiro como material de pintura. A investigação ganhou novas tonalidades: folhas tingidas, diferentes tons de terra, argila, gravetos, desenhos e pensamentos infantis registrados pelo espaço.
Em uma sexta-feira, perguntei a uma criança que passava em frente à minha sala com o pai, a caminho da saída, o que ela mais havia gostado naquele dia. Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, puxou o pai pela mão e nos levou até o ateliê para nos mostrar a “casinha do João-de-Barro”.
O pai imediatamente contou que, próximo à casa da família, os dois observavam com frequência uma casinha de João-de-Barro em um poste de luz. A atelierista, Eliane Schoenell, sorriu ao confirmar que a criança já havia compartilhado aquela história com o grupo.
O que seria uma rápida despedida no fim do dia transformou-se em uma conversa entre criança, família e escola sobre natureza, arquitetura, memória e tudo aquilo que havia sido pesquisado.
Ali estava a arte. Não apenas no que havia sido produzido, mas em tudo aquilo que a experiência havia colocado em movimento.
Arte também é conhecer a cultura
Uma experiência artística ganha ainda mais potência quando oferece à criança acesso à história e à diversidade cultural.
Foi o que aconteceu em uma proposta da professora Juliana Carla, do Infantil 5, durante o período das festas juninas. Em vez de utilizar a chita apenas como elemento decorativo, a professora transformou aquele tecido tão presente na cultura popular brasileira em objeto de investigação.
As crianças conheceram sua história, observaram estampas, letras, formas e cores, pesquisaram e experimentaram diferentes possibilidades com o tecido. Só depois desse percurso nasceu a produção artística.
O produto final importava, claro. Mas carregava consigo algo muito maior: repertório, memória, pesquisa e conhecimento.
É essa passagem que buscamos fazer quando trabalhamos com artes visuais na escola: sair do estereótipo para chegar à cultura.
Como trabalhar arte com crianças de forma prática e efetiva?
Oferecer liberdade de criação não significa abrir mão da intencionalidade pedagógica.
O professor pesquisa, seleciona boas referências, organiza contextos, oferece materiais variados, faz perguntas e, sobretudo, observa as crianças. O próprio briefing propõe experiências contínuas e integração da arte com outras áreas do conhecimento.
O suporte pode ser papel, chão, parede, acetato, papelão ou tecido. Podem entrar argila, carvão, tintas, elementos naturais e diferentes riscantes. Mas os materiais não precisam aparecer como uma combinação previamente determinada pelo adulto. Eles também podem ser investigados e escolhidos a partir das perguntas que surgem durante o percurso.
Para isso, é preciso investimento: formação continuada dos professores, pesquisa, leitura, planejamento, tempo para conhecer as crianças e abertura para escutá-las.
É também por isso que valorizamos a participação das professoras regentes nas experiências conduzidas pela atelierista. Um percurso artístico precisa ter continuidade. Aquilo que nasce no ateliê pode reverberar na sala, nas conversas, nas famílias e em novas investigações.
Antes do produto, existe um percurso
A arte na educação infantil não precisa terminar em uma folha bonita para ser levada para casa.
Seu resultado mais importante talvez nem possa ser pendurado em uma parede.
Ele está na criança que aprendeu algo sobre a cultura de seu povo. Naquela que descobriu uma nova maneira de usar um material. Na que encontrou uma solução depois de várias tentativas. Na que percebeu que sua hipótese merecia ser investigada. Na que viu seu pensamento escutado e reconheceu a si mesma como alguém capaz de produzir conhecimento e cultura.
Antes do produto, existe um percurso. E o grande produto é também aquilo que esse percurso construiu na criança.
Porque a arte que verdadeiramente atravessa a infância não termina no papel. Ela transforma a maneira como a criança olha para si, para o outro e para o mundo — e amplia as possibilidades de transformá-lo também.

