Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? Às vezes é difícil começar algo novo, não é?
Entender como o cérebro aprende ajuda a explicar por que esse processo pode ser, ao mesmo tempo, desafiador e transformador.
Aprender exige sair da zona de conforto. Ao incorporar novos conhecimentos, passamos a aplicá-los em diferentes situações, o que transforma a forma como pensamos e agimos. Essas ideias dialogam com o livro How the Brain Learns, de David A. Sousa, uma das principais referências sobre a relação entre neurociência e aprendizagem.
Como o cérebro processa informações durante a aprendizagem?
O cérebro aprende criando e fortalecendo conexões entre neurônios.
Biologicamente, aprender é um processo que exige energia e envolve mudanças reais no cérebro. Isso acontece graças à plasticidade cerebral: a capacidade que o cérebro tem de fortalecer, enfraquecer ou criar novas conexões. É justamente essa adaptação constante que nos permite adquirir novas habilidades e nos transformar ao longo da vida.
Quanto mais jovens somos, maior tende a ser nossa neuroplasticidade. O pico das conexões neurais ocorre entre os 2 e 3 anos de idade, com um pequeno cérebro indo a milhão! Com o tempo, eliminamos conexões pouco utilizadas, mas continuamos capazes de aprender e se adaptar ao longo de toda a vida.
A adolescência é outra fase crítica do desenvolvimento cerebral, exatamente por ser caracterizada por grandes transformações e incertezas. Nessa fase da vida, a busca por novidades e recompensas imediatas costuma ser intensa, já que o sistema emocional é bastante reativo e as áreas cerebrais relacionadas ao planejamento e ao controle dos impulsos ainda estão em desenvolvimento.
Na fase escolar, portanto, precisamos apoiar as crianças e adolescentes reconhecendo as possibilidades, limitações e exclusividades de cada cérebro. Um ambiente de aprendizado precisa envolver os estudantes por meio da atenção e da motivação.
O modelo de Petersen & Posner nos ajuda a entender essa dinâmica. Em uma sala de aula, por exemplo, o estudante precisa de três elementos para que a aprendizagem seja efetiva: estar alerta, mantendo a atenção; estar orientado, sendo capaz de priorizar informações importantes; e controlar distrações e impulsos. Esse trio pode ser difícil de conjugar, principalmente considerando cérebros ainda em desenvolvimento.
Como a aprendizagem e a memória estão interligadas?
O aprendizado depende da memória, mas aprender vai além de memorizar. Não adianta, claro, entrar em contato com uma informação se não conseguirmos armazená-la e utilizá-la quando necessário. Afinal: quantas vezes você já esqueceu o nome de alguém logo depois de ser apresentado, ou teve que rever o número do seu assento reservado no cinema, ônibus ou avião?
Isso acontece porque o nosso cérebro é capaz de filtrar o que é considerado por ele como relevante, fazendo com que algumas informações permaneçam apenas na memória de curto prazo enquanto só algumas chegam à de longo prazo.
Aqui, destaco dois fatores que ajudam a transformar novos conhecimentos em memórias de longo prazo.
O primeiro, e talvez mais intuitivo, é a repetição. Quando revisitamos uma informação diversas vezes, aumentamos as chances de que ela seja consolidada. Mas existe um ponto de atenção: essa revisão precisa acontecer de forma espaçada.
Por exemplo, estudar toda a matéria na véspera da prova, prática conhecida em inglês como cramming, não costuma gerar aprendizagens duradouras. Por esse motivo, desenvolver o pilar de cultura de estudos é muito mais eficiente do que concentrar todo o esforço nas últimas horas.
O segundo está relacionado ao significado que aquela informação tem para as nossas vidas. Quando conseguimos nos conectar emocionalmente com um novo conhecimento e compreender sua aplicação no cotidiano, tendemos a armazená-lo por mais tempo, pois o cérebro o reconhece como algo importante. Esse é um dos motivos pelos quais metodologias ativas, contextualização e aprendizagem significativa são tão importantes em sala de aula. Nos aprofundaremos nisso a seguir.
Como aplicar a neurociência na educação?
Aplicar conceitos da neurociência na educação trata-se de reconhecer que cada cérebro aprende de maneira única. Por isso, a relevância de criar oportunidades de aprendizagem que respeitem diferentes ritmos e formas de aprender.
Com base nos estudos da área e na minha experiência em sala de aula, compartilho a seguir algumas ideias que podem ajudar a transformar esse conhecimento em prática.
- O aprendizado é favorecido quando nos sentimos desafiados, e não ameaçados
Quem aprende com medo tenderá, sempre, a ter medo de aprender. Por isso, não é eficiente associar o aprendizado à punição pelo erro. O ideal é propor desafios que mantenham os estudantes fora da zona de conforto, mas sem levá-los à uma zona de pânico.
Um modelo que pode apoiar esse processo é a Liberação Gradual da Responsabilidade, proposta por Fisher & Frey, na qual o professor oferece apoio inicial e, aos poucos, promove maior autonomia aos alunos.

Ilustração autoral traduzida e adaptada de Fisher & Frey (2008) com apoio da Inteligência Artificial
- O feedback é essencial para a aprendizagem.
No processo, feedbacks frequentes ajudam os estudantes a compreender seus avanços e dificuldades. Perguntas e respostas, autoavaliações, discussões em grupo e atividades rápidas de revisão são algumas estratégias que podem ser utilizadas.
- Aprender envolve tanto o corpo quanto a mente
Experiências que mobilizam diferentes sentidos tendem a favorecer a atenção e a retenção de informações. Atividades multissensoriais, pausas ativas, uso variado de recursos didáticos e conexões entre o conteúdo e o cotidiano dos estudantes podem tornar o aprendizado mais significativo.
- O cérebro é naturalmente atraído pela novidade
A novidade desperta a curiosidade e mantém o engajamento. Por isso, atividades fora da sala de aula, jogos educativos, projetos interdisciplinares, novos materiais e convidados especiais podem enriquecer a experiência de aprendizagem.
Em resumo, aprender também passa por se permitir experimentar, errar, revisar e olhar de novo para o que antes parecia conhecido.
Então, aprendeu ou refletiu sobre algo novo hoje?
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Referências para aprofundar

– Luana Paulini Couto
Bióloga e Professora/Time Núcleo Pedagógico Sigma

