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Multiletramentos: educar para o mundo real

O que é letrar hoje?

Quando comecei a dar aulas, letrar significava, basicamente, ensinar a ler e escrever. E isso já era desafiador. Mas o mundo mudou e mudou rápido. Hoje, as crianças não apenas leem livros e escrevem no caderno. Elas consomem vídeos no celular, criam memes, se comunicam por áudios, emojis e imagens. Isso também é linguagem. Isso também precisa ser lido, compreendido, criticado e, por que não, produzido.

 É aí que entra o conceito de multiletramento: uma forma de educar que reconhece as diferentes linguagens e formas de comunicação presentes no nosso dia a dia. Não se trata de deixar o alfabeto de lado, de maneira alguma, mas de ampliar o olhar para o que significa, de fato, ser letrado no século 21.

O que a BNCC diz sobre isso?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é clara ao trazer a importância da formação integral do estudante e mostra as competências gerais que precisam ser desenvolvidas na escola. Uma delas diz que o aluno deve “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de forma crítica, significativa e ética”.

Mas a tecnologia é só uma das dimensões do multiletramento. A BNCC também valoriza as diversidades culturais, sociais e linguísticas do Brasil. Ou seja, letrar, hoje, significa também entender que existem diferentes jeitos de falar, escrever e se expressar e que todos merecem espaço na escola.

Experienciar é aprender com o mundo

No colégio onde trabalho, nos anos iniciais houve uma atividade simples: os alunos precisavam pesquisar e apresentar sobre uma tradição cultural de sua família. Tiveram liberdade para escolher o formato. Alguns escreveram textos, outros fizeram vídeos, outros criaram slides com imagens e áudios dos avós contando histórias.

Foi uma explosão de significados. Teve aluno que nunca tinha falado sobre suas raízes em sala. Outros descobriram a origem do seu sotaque. Mais do que apresentar, eles vivenciaram a linguagem em múltiplas formas. Isso é experienciar uma das dimensões do aprender que o multiletramento propõe.

Conceituar: dar nome ao que se vive

Depois da experiência, é hora de parar e refletir: o que aprendemos com isso? Quais tipos de linguagem usamos? Por que escolhemos determinado formato para nos expressar?

Essa é a fase de conceitualizar. Aqui, o professor tem um papel fundamental. É ele quem ajuda o aluno a perceber que, ao fazer um vídeo, ele usou linguagem audiovisual. Que, ao entrevistar os avós, usou a linguagem oral. Que, ao colocar uma legenda, teve que cuidar da norma-padrão. Assim, o estudante começa a entender que a linguagem é múltipla e contextual.

Analisar: ler o mundo com criticidade

Não basta só saber usar. É preciso analisar: por que tal meme viralizou? Que mensagem um vídeo transmite com trilha sonora dramática? Como uma fake news pode nos enganar pela forma como é escrita?

Essas são questões que nossos professores trazem para os alunos, e é impressionante como eles se envolvem. Analisar os meios de comunicação, as redes sociais, os textos que circulam no WhatsApp das famílias… isso os prepara para serem cidadãos críticos, algo essencial no nosso tempo.

E mais: essa análise desenvolve habilidades que vão muito além da escola. O multiletramento estimula o pensamento crítico, a resolução de problemas e a capacidade de adaptação. O aluno começa a compreender que as informações não são neutras, que as linguagens influenciam opiniões e que ele também pode escolher como se posicionar no mundo.

Aplicar: transformar o que se aprende em ação

Depois de viver, entender e analisar, vem a parte que mais gosto: aplicar. É quando o aluno coloca em prática o que aprendeu, com autonomia e criatividade.

Em um projeto sobre sustentabilidade, por exemplo, uma turma pode criar uma campanha digital de conscientização. Para tanto poderiam fazer uso de vídeos, cartazes com QR Code e textos nas redes da escola. Cada aluno escolheria como contribuir, usando a linguagem com propósito. Esse tipo de atividade mostra que a escola pode e deve ser um lugar onde o aluno se expressa de verdade, com voz ativa.

Multiletramentos e o futuro: preparar para o que vem aí

Estamos educando crianças para um mundo que ainda está se formando. Muitas das profissões que elas vão exercer ainda nem existem. E é justamente por isso que o multiletramento é tão necessário.

Ao desenvolver diferentes formas de leitura e produção de sentido, o aluno se torna mais flexível, mais criativo e mais preparado para lidar com a complexidade. Ele aprende a navegar entre linguagens, a trabalhar em equipe, a se comunicar com clareza em ambientes digitais, habilidades cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.

Além disso, o multiletramento aproxima a escola do mundo real. Ajuda a conectar os conteúdos com os desafios do cotidiano, com a vida fora dos muros escolares. O aluno percebe sentido no que aprende. E quando isso acontece, o aprendizado ganha potência.

Multiletrar é incluir

Um ponto que sempre trago nas formações com professores é: o multiletramento também é uma ferramenta de inclusão. Quando valorizamos diferentes formas de expressão, estamos dizendo ao aluno que ele pertence, que sua forma de falar, seu jeito de escrever, sua cultura tem lugar na escola.

É reconhecer que um estudante indígena, por exemplo, pode trazer saberes orais riquíssimos. Que uma criança surda pode se expressar com Libras e ter muito a ensinar.

Não é moda. É necessidade.

Os multiletramentos não são uma tendência passageira. Eles refletem o mundo em que vivemos. Se queremos preparar os alunos para esse mundo e não para um que já não existe mais, precisamos atualizar nosso olhar. E isso começa com pequenas mudanças em sala de aula, com escuta, acolhimento e coragem de experimentar.

Como educadora há mais de 26 anos, posso dizer: nunca foi tão desafiador e tão bonito educar. E nunca foi tão necessário ensinar a ler o mundo em todas as suas linguagens.

 

 

Por Ana Carolina Pires- Psicopedagoga.

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